quinta-feira, 28 de outubro de 2021

SOBRE A LIBERDADE ACADÊMICA

    Quase sempre, quando nos encontramos em meio a um grande acontecimento histórico, não nos damos conta da totalidade da importância de um fato. Ver discussões acadêmicas serem cerceadas nos causam impactos pessoais assustadores – em sentidos diversos -, mas não maiores do que o impacto sofrido por nós como sociedade. 
    Há limite ao pensamento humano? Certamente que não; entretanto, há de haver limite ao que é aceitável circular por entre nós, tanto em meios formais quanto em meios ditos informais, e esse limite deve ser definido pelos Direitos Humanos. Não podemos, jamais, enquanto sociedade, permitir que os limites dos Direitos Humanos sejam ultrapassados sob qualquer – eu disse qualquer! - pretexto; pois não há progresso científico algum quando há violações à dignidade da pessoa humana. 
    Pense bem, já vimos – enquanto espécie – isso acontecer diversas vezes na nossa história, e o resultado foi sempre desastroso para nós. A própria história dos impérios está aí para nos provar que nós, seres humanos, sempre nos valemos do discurso do progresso para levar a outros povos, outras comunidades, outros grupos ditos “menos evoluídos” a iluminação de nossa cultura “superior”, nosso saber “superior”, e o resultado foi invariavelmente o mesmo: poder e aniquilação. Pense nos circassianos, nos ameríndios, nos judeus. Quando vamos parar? 
    Caso preservemos irrestritamente a liberdade de tais ideias, estaremos apenas perpetuando nosso trágico histórico aniquilador, sob o qual nenhum de nós pode estar completamente a salvo; Logo, tal cerceamento faz-se irremediavelmente necessário sempre que discursos potencialmente danoso à dignidade da pessoa humana estiverem em questão; pois tais discursos não devem encontrar espaço entre nós; não devem transitar por nossos meios livremente, mesmo quando eles invocam para si o pretexto do progresso científico. 
    Porém, pela primeira vez a sociedade passou a olhar atentamente, pelo menos aos discursos oficiais circulantes nos meios acadêmicos, e passou a usar deliberadamente da ferramenta do cerceamento, da censura, mas não uma censura qualquer: uma censura moral. Pois, se a lei preserva a liberdade da expressão, a sociedade deixa claro que não tolerará abusos. E isso, meus caros, é um verdadeiro acontecimento histórico.

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